Capa do caso Oi com a chamada "Vender ativos resolve a dívida?", uma torre de telecomunicações, ativos sendo retirados e correntes representando obrigações

Caso Oi: por que vender ativos não resolveu a dívida

O caso Oi mostra por que vender ativos, pagar bilhões em dívidas e encerrar uma recuperação judicial não garantem que a operação volte a gerar caixa sustentável.

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Em dezembro de 2022, a Justiça encerrou a recuperação judicial da Oi iniciada em 2016. A companhia havia vendido ativos, pago obrigações e reduzido sua dívida líquida para R$ 18,3 bilhões a valor justo, conforme dado divulgado ao fim do processo.

Em março de 2023, apenas alguns meses depois, a Oi apresentou um novo pedido de recuperação judicial.

A sequência cria uma pergunta mais útil que “quanto a empresa devia?”:

por que vender ativos e reduzir a dívida não foi suficiente para recuperar a sustentabilidade financeira?

A resposta está na diferença entre três movimentos que costumam ser tratados como se fossem iguais:

  • gerar caixa com a operação;
  • levantar caixa vendendo patrimônio;
  • reduzir obrigações por pagamento ou renegociação.

Este estudo reconstrói a sequência com base no histórico publicado pela Oi, no balanço da saída da primeira recuperação judicial e nas explicações da companhia sobre o novo pedido de 2023.

Transparência da análise: os documentos de relações com investidores apresentam a posição da própria companhia. O artigo identifica essas explicações como tal e separa os fatos documentados das inferências gerenciais. Não é parecer jurídico, recomendação de investimento ou avaliação do plano judicial.

O caso Oi em sete datas

Data Evento Por que importa
20/06/2016 Primeiro pedido de recuperação judicial processo começa com mais de 55 mil credores e passivo global da ordem de R$ 65 bilhões
2018 Reestruturação do plano aprovado pelos credores dívidas são renegociadas e parte convertida em capital
2020 Aditamento ao plano e início das vendas estruturadas de ativos estratégia passa a priorizar fibra, desinvestimento móvel e separação da infraestrutura
2022 Conclusão de vendas relevantes e pagamentos companhia informa pagamento de R$ 15 bilhões em 2022, incluindo obrigações extraconcursais e BNDES
14/12/2022 Encerramento da primeira recuperação judicial cumprimento das obrigações supervisionadas não elimina desafios futuros
01/03/2023 Novo pedido de recuperação judicial estrutura financeira volta à proteção judicial meses após o encerramento anterior
abril e maio de 2024 Credores aprovam e Justiça homologa o segundo plano novas dívidas e contratos são reestruturados; credores recebem 80% do capital após conversão

A linha do tempo impede uma leitura simplista. A primeira recuperação não foi “cancelada” pela segunda: o juízo reconheceu o cumprimento das obrigações previstas até aquele ponto. O que ocorreu depois foi a constatação de que a estrutura remanescente ainda precisava de outra reorganização.

Números parecidos podem medir coisas diferentes

Número divulgado O que representa Cuidado de interpretação
R$ 65 bilhões passivo global aproximado no início da recuperação de 2016 inclui diferentes classes e naturezas de obrigações
mais de 55 mil credores originais quantidade não revela concentração por valor
mais de R$ 20 bilhões caixa levantado com vendas ao longo da transformação, segundo a Oi entrada extraordinária, não recorrente
R$ 15 bilhões pagamentos realizados em 2022, segundo Q&A da companhia inclui dívidas extraconcursais e quase R$ 5 bilhões do BNDES
R$ 18,3 bilhões dívida líquida a valor justo ao fim do 3º trimestre de 2022 métrica diferente do passivo global de 2016
cerca de R$ 10 bilhões impacto cambial estimado pela companhia sobre a dívida original estimativa apresentada pela administração, não uma reconciliação completa da crise
80% participação destinada a credores após conversão no plano de 2024 redução de dívida acompanhada de forte diluição dos antigos acionistas

Comparar R$ 65 bilhões de passivo global com R$ 18,3 bilhões de dívida líquida e concluir uma redução exata de R$ 46,7 bilhões seria incorreto. As medidas têm composição, data e critérios diferentes.

Essa disciplina vale para qualquer análise de indicadores financeiros: dívida bruta, dívida líquida, contas a pagar, passivo total e valor presente não são sinônimos.

Como a venda de ativos ajuda

Vender um ativo pode produzir quatro efeitos legítimos:

  1. entrada imediata de caixa;
  2. pagamento de dívida e redução de juros;
  3. eliminação de custos ligados ao ativo;
  4. concentração da gestão nas atividades escolhidas como principais.

No caso Oi, o movimento incluiu a venda da operação móvel, ativos não essenciais e o controle da infraestrutura que formou a V.tal. A estratégia buscava transformar uma operadora integrada em uma empresa mais concentrada em serviços de fibra e soluções corporativas, preservando participação na infraestrutura.

O problema não é vender. É tratar a venda como prova automática de viabilidade.

Caixa de desinvestimento aparece uma vez. Salários, contratos, manutenção, tributos, juros e obrigações regulatórias reaparecem todos os meses. Se a operação remanescente continua consumindo caixa, o valor recebido apenas adia o ponto de pressão.

A ponte que precisa existir depois da venda

Antes de aprovar um desinvestimento, a gestão deveria apresentar uma ponte como esta:

Etapa Pergunta Efeito no caixa futuro
Preço bruto quanto o comprador pagará e quando? define entradas por data, não apenas o valor anunciado
Custos da transação impostos, assessores, ajustes e retenções serão quanto? reduz o caixa líquido disponível
Dívidas pagas quais credores receberão e quais garantias serão liberadas? reduz principal e juros futuros
Receita perdida o ativo vendido gerava faturamento ou sinergia? pode reduzir entradas recorrentes
Custos que permanecem quais despesas não desaparecem com a venda? cria estrutura ociosa ou contratos sem cobertura
Novos contratos a empresa precisará alugar do comprador algo que antes possuía? troca investimento por pagamento recorrente
Caixa pós-venda por quantos meses o negócio remanescente se sustenta? mede tempo para a operação alcançar equilíbrio

Esse quadro é uma inferência gerencial, não a reprodução do modelo financeiro da Oi. Ele mostra por que o valor de uma transação só ganha significado quando entra no planejamento financeiro empresarial.

Reduzir dívida melhora o balanço, mas não cria margem

Imagine uma empresa que vende um galpão por R$ 10 milhões e usa R$ 8 milhões para pagar empréstimos.

No dia da liquidação:

  • o caixa aumenta e depois diminui com o pagamento;
  • a dívida cai;
  • os juros futuros podem diminuir;
  • um ativo deixa o patrimônio.

No mês seguinte, porém, a empresa ainda precisa vender com margem suficiente para pagar pessoas, tecnologia, fornecedores e a estrutura que restou. Se agora também paga aluguel pelo galpão ou perdeu capacidade operacional, a pressão pode até aumentar.

O caso Oi tornou essa diferença visível em escala bilionária. A companhia informou que as vendas e pagamentos reduziram obrigações importantes, mas reconheceu, ao pedir a nova recuperação, a necessidade de continuar reestruturando a dívida para compatibilizá-la com a expectativa de geração de caixa.

O negócio legado continuou pressionando

Na explicação de 2023, a Oi atribuiu a necessidade de novas medidas a fatores como:

  • deterioração macroeconômica;
  • volatilidade do câmbio e dos juros;
  • atraso em aprovações regulatórias;
  • disputas relacionadas a vendas de ativos;
  • restrições sobre o uso de determinados recursos;
  • declínio mais rápido das receitas de telefonia fixa;
  • obrigações operacionais e regulatórias do negócio legado.

Esses fatores não possuem o mesmo peso e o documento não permite transformá-los em uma decomposição exata. O impacto cambial de aproximadamente R$ 10 bilhões, por exemplo, é uma estimativa apresentada pela companhia sobre a dívida original.

A inferência que os fatos permitem é mais limitada e mais robusta: a redução alcançada na primeira estrutura não foi suficiente para tornar as obrigações compatíveis com o caixa que o novo negócio conseguia ou esperava gerar.

O risco de vender a parte que gera valor

Em uma crise, os ativos mais fáceis de vender costumam ser justamente os mais atraentes. Isso cria um dilema:

  • vender um ativo bom produz liquidez agora;
  • conservar o ativo pode preservar receita, margem ou valorização futura;
  • vender um ativo fraco pode não atrair compradores ou gerar pouco caixa.

Por isso, o gestor precisa analisar o negócio remanescente, não apenas o preço de venda. Perguntas essenciais:

  1. qual margem sai junto com o ativo?
  2. quais custos corporativos permanecem?
  3. o comprador passa a ser fornecedor da empresa?
  4. há reajustes, volumes mínimos ou contratos de longo prazo?
  5. quanto capital de giro a operação reduzida ainda exige?
  6. a venda concentra o risco em um único produto ou mercado?

A ferramenta correta é uma DRE gerencial e um fluxo de caixa pro forma, isto é, reconstruídos como se a venda já tivesse ocorrido.

Por que houve conversão de dívida em capital

No segundo plano, parte dos créditos foi convertida em ações. Segundo o histórico da companhia, os credores passaram a deter 80% do capital, junto com a implantação de uma nova governança.

Uma conversão dívida-capital muda a estrutura:

Antes Depois da conversão
credor tem valor e condições de recebimento credor passa a participar do risco empresarial
dívida gera principal, juros e vencimentos ações não possuem o mesmo vencimento contratual
acionistas detêm a participação existente acionistas anteriores são diluídos
pressão de caixa vem do serviço da dívida pressão diminui, mas a empresa ainda precisa se sustentar

A operação pode reduzir alavancagem e liberar caixa. Não garante lucro, crescimento ou valorização. Ela reorganiza quem financia o risco e em quais condições.

Um teste para saber se a venda resolve ou só adia

Monte três cenários para os 24 meses seguintes:

Cenário Premissa de receita Premissa de margem e custo Pergunta decisiva
Base plano comercial esperado economia anunciada ocorre no prazo quando o caixa operacional fica positivo?
Conservador receita 10% menor ou mais lenta apenas 70% dos cortes se concretizam o dinheiro da venda dura até o equilíbrio?
Estresse perda de cliente, atraso regulatório ou câmbio adverso custos de transição e juros maiores qual obrigação volta a ficar impagável primeiro?

Depois, separe as entradas extraordinárias das recorrentes:

Caixa final = caixa inicial + caixa operacional + venda líquida de ativos + novas dívidas − pagamento de dívidas − investimentos.

Se o caixa final só permanece positivo porque novas vendas de ativos são adicionadas continuamente, o plano ainda depende de patrimônio finito para cobrir um problema recorrente.

Sete sinais de que a reestruturação não terminou

  1. o caixa operacional continua negativo após os desinvestimentos;
  2. projeções dependem de vendas de ativos ainda não contratadas;
  3. custos corporativos caem mais devagar que a receita;
  4. dívida em moeda estrangeira não possui proteção ou limite claro;
  5. o negócio vendido continua essencial por meio de contratos caros;
  6. vencimentos voltam a se concentrar antes do ponto de equilíbrio;
  7. metas são acompanhadas pelo valor arrecadado, não pela geração recorrente.

Esses sinais não provam inviabilidade. Eles indicam que o orçamento empresarial precisa ser refeito com premissas pós-transação e acompanhado com frequência maior.

O que não devemos concluir

  • a primeira recuperação judicial foi fictícia porque houve uma segunda;
  • vender ativos é sempre um erro;
  • reduzir dívida é irrelevante;
  • todo o passivo de R$ 65 bilhões era dívida bancária;
  • R$ 18,3 bilhões podem ser comparados diretamente aos R$ 65 bilhões;
  • o câmbio explica sozinho a nova crise;
  • recuperação judicial é sinônimo de falência.

Os documentos mostram uma reestruturação real e pagamentos materiais. Mostram também que o encerramento da supervisão judicial não equivalia à conclusão econômica da transformação.

A principal conclusão financeira

O caso Oi ensina que uma empresa pode cumprir um plano de dívida e ainda não ter concluído sua recuperação operacional.

Vender ativos, alongar vencimentos e converter dívida em capital podem ser necessários. Mas todos são meios para criar tempo e reduzir pressão. O resultado só se sustenta quando o negócio remanescente gera caixa suficiente para financiar sua operação, seus investimentos e as obrigações que ficaram.

Para uma empresa menor, a regra prática é:

não aprove a venda pelo valor que entra; aprove pelo caixa que sobra e pela operação que continua.

O acompanhamento exige controle financeiro empresarial, projeção pós-venda, calendário de dívidas e comparação mensal entre plano e realizado. A planilha de controle financeiro empresarial pode organizar essas informações e revelar quando o caixa extraordinário está mascarando uma operação ainda deficitária.

Fontes primárias consultadas

Perguntas frequentes

Dúvidas sobre o tema

A Oi faliu?

Não. A Oi utilizou a recuperação judicial para reorganizar dívidas e atividades, continuou operando e teve um segundo plano homologado em 2024. Recuperação judicial busca preservar a atividade viável; falência é outro procedimento.

Quanto era a dívida da Oi na primeira recuperação judicial?

A própria companhia informa que o processo iniciado em 2016 reunia mais de 55 mil credores e passivo global da ordem de R$ 65 bilhões. Passivo global e dívida líquida não são a mesma medida, por isso valores de documentos diferentes não devem ser comparados sem ajuste.

A Oi vendeu ativos para pagar dívidas?

Sim. A transformação incluiu a venda da operação móvel, de ativos não essenciais e do controle da infraestrutura de fibra que formou a V.tal. A companhia informou ter levantado mais de R$ 20 bilhões em caixa ao longo do processo.

Por que a Oi pediu nova recuperação judicial em 2023?

Segundo a companhia, ainda eram necessárias novas ações sobre a dívida diante de câmbio, juros, atrasos regulatórios, disputas de operações de venda e queda mais rápida da telefonia fixa. Gerencialmente, o novo pedido mostrou que a redução do passivo não havia produzido uma estrutura compatível com a geração de caixa esperada.

O que significa converter dívida em ações?

O credor troca parte do valor a receber por participação na empresa. Isso pode reduzir dívida e juros, mas dilui os acionistas existentes e transfere parte do risco e do potencial futuro aos credores que passam a ser sócios.

Qual é a lição do caso Oi para uma empresa pequena?

Venda de ativos e renegociação compram tempo, mas não substituem margem e caixa operacional. Antes de vender um ativo, a empresa deve projetar quanto receberá, quais dívidas serão pagas, qual receita ou capacidade perderá e se o negócio remanescente se sustenta.

Nota editorial

Este conteúdo tem caráter educacional e informativo. Ele não substitui orientação financeira, contábil, jurídica ou de investimentos adequada à sua situação.

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Sobre o autor

Ananias Jr.

Autor do Controle Financeiro. Escreve sobre gestão, processos e decisões orientadas por dados com linguagem prática e critérios claros.

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